Fragmento do capítulo 1
"Deitado, Adolf sentia-se só no barco de cera. Mesmo de olhos fechados, observava a Lua, as estrelas e a escuridão do céu. Mas a escuridão pouco a pouco tomou a Lua, as estrelas, o mar, o horizonte, o barco. Tudo. Só Adolf persistia, dormindo no vazio enquanto o espírito vagava. Consciente de que tudo era um sonho, olhava seu corpo repousando no nada, até que, subitamente, sentiu-se arremessado para dentro da cabeça, para o cérebro que sonhava. Cada vez mais fundo. Cada vez menor.
Agora, Adolf estava microscópico. Até que se aproximou de um neurônio imenso. Uma célula cerebral sofisticadíssima, semelhante a uma estrela. Raízes brotavam dos raios dessa estrela, que o capitão sabia serem chamados de dendritos, com função de captar informações. Chamava atenção um dos raios dessa figura, estendendo-se o suficiente para assemelhar-se a uma longa cauda. Era o axônio que, conforme Adolf aprendera na infância, passava adiante as informações que o neurônio recebera. Perto daquilo, Schindler era uma mosca na sopa. Mas ele não se assustava com isso. Não dizia nada. Apenas observava as ondas de eletricidade estática, brilhantes, que corriam na membrana, na pele do neurônio. Ondas de luz que davam ao cérebro a capacidade de pensar, correndo dos pequenos dendritos para o longo axônio. Mas Adolf continuava curioso e ainda diminuía. E foi a curiosidade que o levou a mergulhar no fluxo de informações.
Dentro do axônio, moléculas brilhavam suavemente, caminhando sem pressa. Ao longe, via seus cinqüenta e dois cromossomos. Número adequado para um Homo neurocampalis, seis a mais que o Homo sapiens. Seis bancos de DNA que lhe asseguravam a existência e o controle do campo neural. Mas o que Adolf examinava, bem de perto, era a corrente de partículas. Minúsculas, como grãos de areia, e brilhantes, por estarem eletronicamente carregadas. Eram íons de sódio. Convergiam para pequenas ventosas na membrana, sendo capturadas e arrastadas para fora do axônio. Uma vez liberadas fora da célula, outras maiores, também brilhantes, as substituíam nas ventosas. Tratavam-se de íons de potássio sendo arrastados para dentro da célula, no caminho inverso aos de sódio. Um fenômeno conhecido desde o século XX como bomba de sódio e potássio. Adolf já havia estudado tal modelo, mas agora via tudo acontecer de muito perto. E sentia ser evidente a causa das ondas de luz: quando o fluxo de informação passava, as partículas, por um instante, trocavam de direção. Os íons de potássio, que entravam, passavam a sair, e os de sódio, que saíam, entravam por alguns momentos. Tudo perfeito e calmo. A informação corria, sem pressa, mas rápida.
Sem aviso, um feixe de laser, vindo de fora do neurônio (talvez de fora do corpo), convergiu para o núcleo do neurônio. O laser desenhou, materializou e esculpiu em segundos um soberbo e avantajado cromossomo novo, condensado, quase cinco vezes maior que os outros. Um novo mestre que, assim que se viu pronto, afrouxou-se e começou a gerar bilhões de novas e gigantescas moléculas de alta complexidade.
Tudo se turbava. Tudo obedecia a este novo e apressado maestro, transformando o interior do neurônio em um aglomerado de vultos de moléculas voando de um lado para o outro. Uma dança louca e indiscernível, formando uma onda devastadora que crescia do novo cromossomo para todo o neurônio. Vendo-a se aproximar, Adolf sentiu-se gelar, engolindo um pavor seco. Uma palavra raramente proferida surgiu em seus lábios enquanto escondia o rosto com os antebraços:
— Merda!
A maré de caos engoliu Adolf. E ele sabia muito bem que algo terrível estava para acontecer com o seu corpo. "
Fragmento do capítulo 4
“Após algumas horas de uma orgia macabra, a tripulação recobrara o juízo, bocas borradas de vermelho. Eles lembravam-se do gosto suave, sensual e erótico do líquido. Do quanto beber o sangue dos feridos na guerra não parecia um mal. A própria razão os impulsionava a isso: “Eles vão morrer de todo jeito”. Então sugavam gulosamente, como quem bebe água temendo que se evapore. Os cinco litros de sangue de um ser humano normal logo se iam, como uma pequena dose de licor sobrenatural: doce e refrescante, mas também morno e salgado. Porém, logo os feridos acabaram. E o desejo continuou. E novamente a razão era corrompida: “Os vivos vão acabar se matando mesmo, é uma guerra”. Então não fazia mal feri-los. Tirar vidas humanas com a própria boca. Sugar o sangue deles até que os corações não tivessem mais força nem o que impulsionar. Até mesmo ter a impressão de perceber o mundo com os olhos da vítima. O contato com a fonte da vida das pessoas. Suas almas. Sim, essa sensação que não se sabia ser um fetiche de mentes doentes ou uma nova forma de telepatia. Uma nova e sinistra nuance no paladar. Sentir o ferro da hemoglobina, lembrando uma espada lasciva que cortaria a língua. Um prazer sádico e masoquista, estar provocando dor e recebendo a dor que se provoca. Sentir-se machucando alguém e, conectado à mente da vítima, vivenciar o horror lancinante de ser ferido, mordido, rasgado e sugado até a morte. Sentir um coração parando, uma consciência esvaindo-se lentamente, e a vida do nativo passando para o imortal. Pelos olhos da vítima, a morte invadindo e conquistando, a vida sendo roubada. O prazer negro de morrer. Mas milésimos de segundo após a passagem, quando não havia mais o que ser sugado, quando não havia mais alma para ser sentida, o imortal voltava a se perceber como tal. E isso era como nascer de novo. Era como ressuscitar.
As mentes ficavam muito mais ágeis enquanto o sangue dos mortais era recente em seus corpos. Eles tinham certeza que conseguiriam resolver o mais elaborado enigma em questão de segundos. Questões que antes massacravam suas almas pareciam insetos que poderiam ser facilmente esmagados pela razão. Sim, eles se sentiam onipotentes. Poderiam lutar contra qualquer coisa, qualquer um, contra todo o cosmo. Poderiam lutar e vencer. E, frente a tanto poder, as velhas convenções humanas tornavam-se pó.”
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