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Resenha na revista Scarium

"Gênese Vermelha: FC, Terror e Filosofia mórbida.

Por Edgar Indalecio Smaniotto

O vampiro é um dos motivos fantásticos mais recorrentes na literatura de horror, ainda assim existem amplas possibilidades para se trabalhar com este arquétipo da cultura ocidental e, porque não?, mundial.

Diversos autores brasileiros têm se dedicado ao gênero do terror nos últimos anos, em especial produzindo histórias calcadas no mito do vampiro. André Vianco é o autor de maior sucesso comercial atualmente. Boas histórias aparecem sob a pena de Giulia Moon e Martha Argel, entre diversos outros autores que buscam no gênero um território propício ao desenvolvimento de suas inspirações literárias.

Entre esses novos autores, é possível que o goiano Osíris Reis venha a construir uma obra com elementos próprios, ainda que seu primeiro romance apresente certas limitações. Nessa resenha farei uma breve análise de seu livro Gênese Vermelha , apresentado como primeiro de uma série de sete romances que pretende contar a saga de treze milênios do envolvimento de vampiros na história humana.

O mito do vampiro está ligado diretamente ao oculto, ao sobrenatural, à magia e à religião. Ele é aquele homem, segundo Louis Vax, que “prolongou a sua vida para além dos limites normais...Ora, o homem tem a vaga impressão de que só pode prolongar indefinidamente a sua própria vida roubando parte da vida dos outros” ( A Arte e a Literatura Fantásticas ).

Apesar do vampiro estar ligado à magia e ao oculto e, na tradição cristã, ao satanismo, alguns autores buscam dar explicações científicas para sua origem. Esse é o caso do excelente O Império do Medo , de Brian Stableford, e dos contos do escritor brasileiro Gerson Lodi-Ribeiro, tais como O Caminho da Verdade: uma história do povo Verdadeiro , O Vampiro de Nova Holanda e Assessor para Assuntos Fúnebres , os dois últimos presentes no livro Outros Brasis , a ser resenhado por nós nesta revista, futuramente.

Osíris justifica a criação e a saga histórica de seus vampiros utilizando o recurso da viagem no tempo. Eurass Brown, um cientista genial com poder de alterar quarks e léptons a serviço da Democracia Intergaláctica (organização política, utópica, supranacional e pan-galáctica do ano 7523), é quem cria a tecnologia de viagem no tempo.

No decorrer da experiência realizada por Brown, além dos seus participantes involuntários voltarem no tempo, à pré-escrítica (a nossa famosa pré-história), mudanças genéticas vão paulatinamente transformando os civilizados e éticos cidadãos da Democracia Intergaláctica em vampiros. Não vou me alongar no processo descrito por Osíris como causador da transformação genética de humanos em vampiros, deixo para o leitor explorar a plausibilidade ou não dos argumentos científicos do autor.

Um dos pontos fortes do livro é a possibilidade de penetrarmos na psique dos personagens no momento de sua metamorfose. São bem vivos e elaborados os tormentos que levam os homens educados e que se consideram um novo homo Homo neurocampalis , ou seja, acima do Homo Sapiens Sapiens — a serem tentados pelos desejos mais animalescos presentes em nossa genética.

Adolf Schindler, médico e telepata, é o único dos sete tripulantes a resistir aos instintos hemofágicos que acometem seus companheiros de viagem. Eurass Brown, por sua vez, não tem nenhum pudor em romper todas as amarras éticas e morais que os seres humanos constituíram ao longo de sua história, escrita ou não.

A narrativa se concentra no duelo entre Schindler e Brown, ambos agora na Terra do ano 5.477 a .C., sendo que o primeiro tenta a todo custo salvar a continuidade temporal que dará origem à sua utópica Democracia Intergaláctica, enquanto o segundo quer criar um império sob seu governo ainda nessa era pré-escrítica. Império este, a semelhança do romance Anno Dracula , de Kim Newman, em que os vampiros se tornarão a casta dominante.

Os demais vampiros originais (aqueles vindos do futuro) ou transformados se aliam a um dos dois lados conforme suas necessidades momentâneas. Assim, o autor pretende narrar a história da humanidade através da ação dos vampiros entre os anos 5.477 a .C. e 7.523 d.C., unindo romance histórico e ficção científica.

Esta é uma proposta já utilizada pela escritora Anne Rice em sua série Crônicas Vampirescas e pelo autor brasileiro Ivan Jaf em O vampiro que descobrir o Brasil . O inovador na saga de Osíris é o embate para manter a continuidade temporal, principal preocupação de Schindler. Essa preocupação é bem mais comum em histórias de policiais temporais, como aqueles que encontramos na antologia Intempol: contos sobre viagens no tempo , organizada por Octavio Aragão.

Apesar dos elementos de Ficção Científica e saga histórica presentes na obra, o terror é sem dúvida o foco da narrativa. Osíris usa e abusa de descrições cenas de sexo explícito (hetero, homo e bissexual, entre outras variantes), e de cenas de estupro, espancamento e tortura, algumas delas bastante fortes, mas que certamente irão agradar aos fãs do gênero.

Na verdade, é na violência gratuita e amoral exercida por vampiros e humanos, descrita com muita vivacidade pelo autor, que o romance realmente chama a atenção. Até porque são as ações daqueles humanos superiores, agora verdadeiros deuses entre os povos da pré-história, ao se verem livres das amarras sociais e éticas impostas por sua organização política e sem medo da punição da lei, que revelam a verdadeira natureza humana.

Como já bem salientava o filósofo Thomas Hobbes em seu Leviatã : “durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos o homens contra todos os homens”. Uma interpretação possível para a saga Treze Milênios é justamente a de que, sem a instituição da Democracia Intergaláctica, os cidadãos do futuro simplesmente retornaram ao estado natural hobbesiano.

Mas Gênese Vermelha também tem seus pontos fracos e o principal se encontra no herói da história, Adolf Schindler, e na tentativa bizarra e totalmente dispensável de Eurass Brown em transformá-lo em homossexual através de uma lobotomia telepática. É realmente irritante acompanhar a eterna choradeira de Schindler durante o romance, sempre a lastimar suas constantes derrotas e dúvidas morais. É lógico que não estamos defendendo aqui que o herói deve ser aquela figura transparente e sem dúvidas como os personagens de quadrinhos americanos, mas a sua autopiedade e fraqueza moral são deveras exageradas.

Os verdadeiros heróis da trama são os escravos dos vampiros, principalmente Setat, que mesmo diante de uma inferioridade imensa desafia a dinastia de Eurass, com maior dignidade e coragem que Schindler.

No geral, estamos diante de uma obra que vale a pena ser lida, tanto pelo terror visceral nu e cru de Osíris, com suas descrições de cenas de tortura e sexo por vezes chocantes e perturbadoras, quanto pela mistura que faz entre terror, Ficção Científica e filosofia mórbida. Boa leitura! "

 

Edgar Indalecio Smaniotto é filósofo, mestre em Ciências Sociais e resenhista das revistas Scarium Magazine ( http://www.scarium.com.br ) e macroCosmo.com ( http://www.revistamacrocosmo.com )

Contato com o resenhista: edgarsamiotto@gmail.com

Revista Scarium nº 20, Julho / Agosto / Setembro de 2007, pg 68 a 70

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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